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APOCALIPSE NA VEIA
Carros novos poderão rastrear olhos do motorista em tempo real a partir de 2027
Por Administrador
Publicado em 15/05/2026 16:10
MUNDO

Câmeras infravermelhas, sensores de respiração e algoritmos embarcados prometem detectar embriaguez e sonolência diretamente na cabine dos veículos.

Uma lei federal americana já em vigor desde novembro de 2021 — a Seção 24220 da Lei de Investimentos em Infraestrutura — determina que todos os carros novos vendidos nos Estados Unidos passem a contar com tecnologia capaz de identificar sinais de embriaguez ou sonolência ao volante e, se necessário, bloquear ou limitar o funcionamento do veículo.

Entre os recursos considerados estão câmeras infravermelhas instaladas na coluna de direção ou no pilar A, capazes de monitorar o movimento dos olhos, a dilatação das pupilas e os padrões de atenção do motorista dezenas de vezes por segundo, sem qualquer ação do condutor.

O problema: a tecnologia ainda não é confiável o suficiente

Em março de 2026, a agência americana de segurança no trânsito (NHTSA) enviou ao Congresso um relatório que reconhece um obstáculo central: nenhum sistema disponível atende ao nível de confiabilidade exigido pela lei. As taxas de erro são consideradas inaceitáveis, especialmente próximo ao limite legal de concentração alcoólica de 0,08% no sangue — justamente o ponto onde o sistema precisaria ser mais preciso.

A matemática é direta: com centenas de milhões de veículos rodando pelos Estados Unidos, mesmo um índice de erro de 0,1% geraria milhões de falsos positivos e falsos negativos por ano. Na prática, isso poderia bloquear motoristas sóbrios, reduzir a velocidade de carros em rodovias ou deixar passar motoristas realmente comprometidos.

Situações cotidianas agravam o risco: um profissional saindo de um plantão, uma pessoa diabética com glicemia baixa, alguém evacuando uma área de emergência. Qualquer sinal fisiológico ambíguo pode ser interpretado pelo sistema como impedimento e travar o veículo.

Dados biométricos coletados em tempo real

Além das câmeras oculares, alguns projetos incluem sensores de respiração para análise de componentes do ar exalado pelo motorista. Essas informações são dados biométricos sensíveis — e a lei, como foi escrita, não estabelece proteções claras sobre armazenamento, compartilhamento com terceiros nem direito de desativação pelo usuário.

O histórico recente do setor reforça a preocupação. A General Motors foi proibida pela FTC, em janeiro de 2025, de vender dados de condução de clientes após ser identificada repassando informações de aceleração, frenagem e localização a empresas que os vendiam para seguradoras. Com dados biométricos, o valor comercial — e o risco de uso indevido — é ainda maior.

Impacto no mercado e no Brasil

A exigência vale apenas para veículos fabricados após a vigência da norma final, criando uma divisão entre a frota atual e os modelos futuros. Analistas já preveem valorização dos carros usados entre compradores preocupados com privacidade, que podem preferir modelos sem o monitoramento obrigatório.

A tecnologia, uma vez instalada em hardware, também abre espaço para expansões futuras via atualização remota de software — um modelo já comum em carros conectados e smartphones.

No Brasil, não há regulação equivalente em vigor. A Europa avança com normas similares pelo pacote GSR2, e o país costuma acompanhar as regulações europeias com algum atraso. O debate deve chegar ao mercado brasileiro nos próximos anos.

O argumento a favor

A NHTSA estima que a tecnologia poderia evitar entre 9.000 e 10.000 mortes por ano nos EUA. Em 2021, mais de 13.000 pessoas morreram em acidentes envolvendo motoristas alcoolizados — cerca de um terço de todas as mortes no trânsito americano, com custo estimado de US$ 280 bilhões à economia. Para grupos como a MADD (Mothers Against Drunk Driving), os ganhos em segurança justificam o avanço, desde que as questões de privacidade sejam resolvidas em paralelo.

A pergunta que permanece em aberto é quem controla os dados — e por quanto tempo.

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